A Evolução Filosófica e Histórica da Biologia.
Olá amigos! Que tal fazermos uma viagem panorâmica sobre a história e a filosofia das ciências biológicas? Essa ciência se a partir de uma narrativa que atravessou vários contextos filosóficos, históricos e sociais ao longo do tempo. Vamos lá?
A Ciência na Grécia Antiga: O Despertar da Observação e a Ordem de Aristóteles
Os primórdios mais importantes da Biologia foram banhados pelo mar Egeu, na Grécia antiga do século quatro antes de Cristo. Antes deste período, a filosofia de Platão afirmava que o conhecimento verdadeiro estava exclusivamente no mundo das ideias, um mundo abstrato. A observação direta da natureza era considerada uma distração. Mas as vezes é fácil se distrair com as belezas naturais não é?
Surge então Aristóteles, ele rejeitou essa ideia de Platão e acabou fundando as bases empíricas da biologia, ou seja, baseadas nas observações e nas experiências práticas. Aristóteles passava horas dissecando animais marinhos e observando o desenvolvimento de embriões de pintinhos, catalogando a diversidade da vida. Ele fundamentou sua biologia em uma filosofia teleológica. “Teleológica?” Sim, a ideia de que todas as coisas na natureza têm um propósito ou uma finalidade. Para ele, a natureza não faz nada sem um motivo.
Um dos conceitos mais duradouros e pedagogicamente cruciais estabelecidos por ele foi a chamada "Scala Naturae", a Grande Cadeia do Ser. Aristóteles enxergou um contínuo de complexidade, uma escada fixa de perfeição, indo dos minerais e plantas na base dessa escala, entidades mais simples, até os animais com alma sensitiva, e culminando no ser humano com sua alma racional, logo mais complexos. Essa lógica intuitiva, baseada no senso comum e em propósitos intrínsecos aos seres, apenas reflete como a mente humana é naturalmente aristotélica em sua busca por um propósito no mundo vivo.
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A Ciência Medieval: A Preservação, a Teologia e a Fixidez das Espécies
As ideias de Aristóteles persistiram por muitos séculos, inclusive chegando até a idade média. Logo de cara precisamos desmistificar a ideia de que este foi um período estéril, uma “idade das trevas”. A ciência biológica medieval foi uma era de preservação textual e estudos teológicos. A "Scala Naturae" de Aristóteles foi adotada, mas foi cristianizada. O que antes era uma organização puramente biológica tornou-se uma ordem hierárquica decretada pela vontade do próprio Deus! Acreditava-se que todas as espécies de seres vivos eram fixas e imutáveis desde a criação. Um lobo era o mesmo na idade média, foi o mesmo na aurora dos tempos e nunca deixaria de ser um lobo.
No tocante às fontes de conhecimento, a natureza era o "Livro da Natureza", onde cada ser vivo podia ser interpretado como um símbolo moral. Os bestiários medievais ensinavam, por exemplo, que o pelicano feria o próprio peito para alimentar seus filhotes com seu sangue, uma alegoria biológica para o sacrifício de Cristo. A biologia era serva da teologia.
No mundo islâmico, figuras como Avicena mantiveram o conhecimento empírico vivo, fundindo a filosofia aristotélica com a medicina de Galeno.
A Ciência Moderna: A Revolução de Bacon e a Fisiologia Mecânica de Descartes
A ruptura com o mundo estático medieval europeu ocorreu através da Revolução Científica, ocorrida ao longo dos séculos 16 ao 18. O inglês Francis Bacon acreditava que a estagnação científica era causada por uma adesão cega às ideias Aristotélicas. Ele era contra a obtenção de conhecimento vindo primordialmente das próprias ideias, inclusive chamava os vieses cognitivos humanos de "Ídolos da Mente". Em sua obra "Novum Organum", Bacon propôs que o conhecimento verdadeiro deveria ser obtido através do empirismo rigoroso e do raciocínio indutivo, ou seja, os dados devem ser obtidos das observações e experimentos e insistia na necessidade de se utilizar os grupos de controle nos experimentos. Para Francis Bacon a natureza não deve ser apenas contemplada, mas também, isolada e testada.
Logo depois, o matemático francês René Descartes forneceu à biologia o modelo mecanicista. Para ele, os corpos vivos não possuíam uma espécie de força vital mágica, eles operavam como as engrenagens de um relógio complexo: verdadeiras máquinas! Ele formulou a tese do animal-máquina, argumentando que os animais eram autômatos biológicos sem consciência verdadeira, regidos pela física e dinâmica dos fluídos. Apenas os humanos possuíam uma alma racional, que interagia com a máquina do corpo através da glândula pineal. Esse reducionismo mecanicista, embora radical, permitiu que a fisiologia fosse estudada pelas leis da física e da matemática, influenciando descobertas como a da circulação do sangue por William Harvey, no século 17.
Mas, ao contrário de Francis Bacon, que defendia o método científico indutivo, Descartes defendia o método dedutivo: enquanto Bacon acreditava que o conhecimento deveria nascer dos dados acumulados a partir de observações e experimentos, Descartes sustentava que a razão poderia deduzir verdades e conhecimento sobre casos particulares partindo de princípios gerais evidentes e abrangentes.
O Retorno do Propósito: Kant e o Enigma do Organismo
O filósofo Immanuel Kant percebeu que o empirismo fica limitado pois os experimentos fornecem os dados, mas não explicam sozinhos como eles se organizam. Para isso é necessário usar a mente e a razão. No entanto, o dedutivismo e racionalismo por si sós, mesmo podendo organizar e estruturar conceitos, dependem dos experimentos para obter conhecimentos reais. Daí vem a sua célebre frase: “Os pensamentos sem conteúdo são vazios; as intuições sem conceitos são cegas”.
Assim, Kant foi o responsável por fazer uma síntese entre o indutivismo de Francis Bacon e o dedutivismo de René Descartes. Unindo o melhor dos dois mundos, ele propôs que o conhecimento humano resulta da interação entre a experiência sensível e as estruturas racionais a priori. Em sua “Crítica da Razão Pura” de 1781, ele conciliou o empirismo e racionalismo, criando o que chamou de “filosofia crítica”.
Ok, mas ainda havia algo a resolver. Apesar da elegância, o mecanicismo de Descartes esbarrava em um problema: o desenvolvimento autônomo dos seres vivos. Uma máquina é montada por uma entidade externa, como um engenheiro, mas um embrião se desenvolve sozinho em um organismo adulto. Como explicar isso sem invocar algum poder sobrenatural?
Immanuel Kant, em sua obra "Crítica da Faculdade do Juízo", de 1790, elaborou uma resposta a esse paradoxo definindo os organismos como sendo “propósitos naturais”, ou "Naturzweck". Kant argumentou que, em um ser vivo, as partes e o todo causam e formam um ao outro reciprocamente. Usando a analogia de uma árvore, ele argumenta que as folhas, as raízes e o caule se produzem e se mantêm de forma recíproca. O organismo é um sistema integrado. Contudo, Kant alertou que atribuir um propósito à natureza é apenas um princípio regulativo, uma ferramenta cognitiva da mente humana para entender os sistemas complexos.
A Biologia Contemporânea: Darwin, Mendel e a Síntese
Independente das contribuições de Kant, ainda persistia a ideia de fixismo ou imutabilidade das espécies, evidenciado pelo sistema de classificação dos organismos proposto por Karl von Linné em 1758. Ainda usamos alguns dos conceitos desse sistema, como as categorias taxonômicas e o sistema de nomenclatura binomial.
Porém, avançando para a Era Vitoriana, no século 19, o cenário de uma biologia estática ruiu. Os geólogos como James Hutton e Charles Lyell, revelaram o "tempo profundo", provando através dos estratos rochosos que o planeta Terra era muito antigo, muito mais do que se pensava até então, e esse grande período de tempo geológico é um dos fatores que permite a modificação das espécies ao longo das gerações.
Neste cenário de expansão industrial, o naturalista britânico Charles Darwin realizou a sua icônica viagem de barco ao redor de várias partes do mundo. Darwin não foi o primeiro a propor uma teoria da evolução das espécies, antes dele, o francês Jean-Baptiste Lamarck já havia sugerido a evolução por meio da herança das características adquiridas décadas antes. O que Darwin, e também Alfred Russel Wallace, propuseram de novidade foi um mecanismo operatório: a seleção natural.
Para que a seleção natural funcionasse, a biologia precisava entender como as características eram herdadas. Embora Darwin não o soubesse em sua época, o monge austríaco Gregor Mendel estava plantando ervilhas e descobrindo as bases da hereditariedade e da genética. Quando as ideias de Darwin e Mendel foram finalmente unidas no século XX, nasceu a Síntese Evolutiva Moderna.
Hoje, a biologia contemporânea alcançou a biologia dos sistemas e a biologia molecular. Não vemos mais os organismos apenas como os relógios de Descartes ou as essências de Aristóteles, mas como vastas redes interativas de informações genéticas e proteômicas, fluindo através do ambiente interno, o "milieu intérieur", num incrível equilíbrio fisiológico e ecológico.
Quais serão as próximas grandes surpresas que nos aguardam, na medida em que a nossa compreensão sobre a vida avança?
Referências Bibliográficas
Alberts, B. et al. Molecular Biology of the Cell. 7th ed. 2022.
Cohen, C. The Story of Science. 2016.
Futuyma, DJ. & Kirkpatrick, M. Evolution. 4th ed. 2017.
Godfrey-Smith, P. Theory and Reality: an introduction to the philosophy of science. 2nd ed. 2021.
Hall, JE. Guyton and Hall Textbook of Medical Physiology. 14th ed. 2020.
Urry, LA. et al. Campbell Biology. 12th ed. 2021.
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