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domingo, abril 05, 2026

UMA VISÃO PANORÂMICA DA HISTÓRIA E FILOSOFIA DA BIOLOGIA

 A Evolução Filosófica e Histórica da Biologia.

Olá amigos! Que tal fazermos uma viagem panorâmica sobre a história e a filosofia das ciências biológicas? Essa ciência se a partir de uma narrativa que atravessou vários contextos filosóficos, históricos e sociais ao longo do tempo. Vamos lá?


A Ciência na Grécia Antiga: O Despertar da Observação e a Ordem de Aristóteles


Os primórdios mais importantes da Biologia foram banhados pelo mar Egeu, na Grécia antiga do século quatro antes de Cristo. Antes deste período, a filosofia de Platão afirmava que o conhecimento verdadeiro estava exclusivamente no mundo das ideias, um mundo abstrato. A observação direta da natureza era considerada uma distração. Mas as vezes é fácil se distrair com as belezas naturais não é?


Surge então Aristóteles, ele rejeitou essa ideia de Platão e acabou fundando as bases empíricas da biologia, ou seja, baseadas nas observações e nas experiências práticas. Aristóteles passava horas dissecando animais marinhos e observando o desenvolvimento de embriões de pintinhos, catalogando a diversidade da vida. Ele fundamentou sua biologia em uma filosofia teleológica. “Teleológica?” Sim, a ideia de que todas as coisas na natureza têm um propósito ou uma finalidade. Para ele, a natureza não faz nada sem um motivo.


Um dos conceitos mais duradouros e pedagogicamente cruciais estabelecidos por ele foi a chamada "Scala Naturae", a Grande Cadeia do Ser. Aristóteles enxergou um contínuo de complexidade, uma escada fixa de perfeição, indo dos minerais e plantas na base dessa escala, entidades mais simples, até os animais com alma sensitiva, e culminando no ser humano com sua alma racional, logo mais complexos. Essa lógica intuitiva, baseada no senso comum e em propósitos intrínsecos aos seres, apenas reflete como a mente humana é naturalmente aristotélica em sua busca por um propósito no mundo vivo.


(Clique nas imagens para aumentar).



A Ciência Medieval: A Preservação, a Teologia e a Fixidez das Espécies


As ideias de Aristóteles persistiram por muitos séculos, inclusive chegando até a idade média. Logo de cara precisamos desmistificar a ideia de que este foi um período estéril, uma “idade das trevas”. A ciência biológica medieval foi uma era de preservação textual e estudos teológicos. A "Scala Naturae" de Aristóteles foi adotada, mas foi cristianizada. O que antes era uma organização puramente biológica tornou-se uma ordem hierárquica decretada pela vontade do próprio Deus! Acreditava-se que todas as espécies de seres vivos eram fixas e imutáveis desde a criação. Um lobo era o mesmo na idade média, foi o mesmo na aurora dos tempos e nunca deixaria de ser um lobo.


No tocante às fontes de conhecimento, a natureza era o "Livro da Natureza", onde cada ser vivo podia ser interpretado como um símbolo moral. Os bestiários medievais ensinavam, por exemplo, que o pelicano feria o próprio peito para alimentar seus filhotes com seu sangue, uma alegoria biológica para o sacrifício de Cristo. A biologia era serva da teologia. 


No mundo islâmico, figuras como Avicena mantiveram o conhecimento empírico vivo, fundindo a filosofia aristotélica com a medicina de Galeno.





A Ciência Moderna: A Revolução de Bacon e a Fisiologia Mecânica de Descartes


A ruptura com o mundo estático medieval europeu ocorreu através da Revolução Científica, ocorrida ao longo dos séculos 16 ao 18. O inglês Francis Bacon acreditava que a estagnação científica era causada por uma adesão cega às ideias Aristotélicas. Ele era contra a obtenção de conhecimento vindo primordialmente das próprias ideias, inclusive chamava os vieses cognitivos humanos de "Ídolos da Mente". Em sua obra "Novum Organum", Bacon propôs que o conhecimento verdadeiro deveria ser obtido através do empirismo rigoroso e do raciocínio indutivo, ou seja, os dados devem ser obtidos das observações e experimentos e insistia na necessidade de se utilizar os grupos de controle nos experimentos. Para Francis Bacon a natureza não deve ser apenas contemplada, mas também, isolada e testada.


Logo depois, o matemático francês René Descartes forneceu à biologia o modelo mecanicista. Para ele, os corpos vivos não possuíam uma espécie de força vital mágica, eles operavam como as engrenagens de um relógio complexo: verdadeiras máquinas! Ele formulou a tese do animal-máquina, argumentando que os animais eram autômatos biológicos sem consciência verdadeira, regidos pela física e dinâmica dos fluídos. Apenas os humanos possuíam uma alma racional, que interagia com a máquina do corpo através da glândula pineal. Esse reducionismo mecanicista, embora radical, permitiu que a fisiologia fosse estudada pelas leis da física e da matemática, influenciando descobertas como a da circulação do sangue por William Harvey, no século 17.


Mas, ao contrário de Francis Bacon, que defendia o método científico indutivo, Descartes defendia o método dedutivo: enquanto Bacon acreditava que o conhecimento deveria nascer dos dados acumulados a partir de observações e experimentos, Descartes sustentava que a razão poderia deduzir verdades e conhecimento sobre casos particulares partindo de princípios gerais evidentes e abrangentes.





O Retorno do Propósito: Kant e o Enigma do Organismo


O filósofo Immanuel Kant percebeu que o empirismo fica limitado pois os experimentos fornecem os dados, mas não explicam sozinhos como eles se organizam. Para isso é necessário usar a mente e a razão. No entanto, o dedutivismo e racionalismo por si sós, mesmo podendo organizar e estruturar conceitos, dependem dos experimentos para obter conhecimentos reais. Daí vem a sua célebre frase: “Os pensamentos sem conteúdo são vazios; as intuições sem conceitos são cegas”.


Assim, Kant foi o responsável por fazer uma síntese entre o indutivismo de Francis Bacon e o dedutivismo de René Descartes. Unindo o melhor dos dois mundos, ele propôs que o conhecimento humano resulta da interação entre a experiência sensível e as estruturas racionais a priori. Em sua “Crítica da Razão Pura” de 1781, ele conciliou o empirismo e racionalismo, criando o que chamou de “filosofia crítica”. 


Ok, mas ainda havia algo a resolver. Apesar da elegância, o mecanicismo de Descartes esbarrava em um problema: o desenvolvimento autônomo dos seres vivos. Uma máquina é montada por uma entidade externa, como um engenheiro, mas um embrião se desenvolve sozinho em um organismo adulto. Como explicar isso sem invocar algum poder sobrenatural?


Immanuel Kant, em sua obra "Crítica da Faculdade do Juízo", de 1790, elaborou uma resposta a esse paradoxo definindo os organismos como sendo “propósitos naturais”, ou "Naturzweck". Kant argumentou que, em um ser vivo, as partes e o todo causam e formam um ao outro reciprocamente. Usando a analogia de uma árvore, ele argumenta que as folhas, as raízes e o caule se produzem e se mantêm de forma recíproca. O organismo é um sistema integrado. Contudo, Kant alertou que atribuir um propósito à natureza é apenas um princípio regulativo, uma ferramenta cognitiva da mente humana para entender os sistemas complexos.






A Biologia Contemporânea: Darwin, Mendel e a Síntese


Independente das contribuições de Kant, ainda persistia a ideia de fixismo ou imutabilidade das espécies, evidenciado pelo sistema de classificação dos organismos proposto por Karl von Linné em 1758. Ainda usamos alguns dos conceitos desse sistema, como as categorias taxonômicas e o sistema de nomenclatura binomial.  


Porém, avançando para a Era Vitoriana, no século 19, o cenário de uma biologia estática ruiu. Os geólogos como James Hutton e Charles Lyell, revelaram o "tempo profundo", provando através dos estratos rochosos que o planeta Terra era muito antigo, muito mais do que se pensava até então, e esse grande período de tempo geológico é um dos fatores que permite a modificação das espécies ao longo das gerações.


Neste cenário de expansão industrial, o naturalista britânico Charles Darwin realizou a sua icônica viagem de barco ao redor de várias partes do mundo. Darwin não foi o primeiro a propor uma teoria da evolução das espécies, antes dele, o francês Jean-Baptiste Lamarck já havia sugerido a evolução por meio da herança das características adquiridas décadas antes. O que Darwin, e também Alfred Russel Wallace, propuseram de novidade foi um mecanismo operatório: a seleção natural.


Para que a seleção natural funcionasse, a biologia precisava entender como as características eram herdadas. Embora Darwin não o soubesse em sua época, o monge austríaco Gregor Mendel estava plantando ervilhas e descobrindo as bases da hereditariedade e da genética. Quando as ideias de Darwin e Mendel foram finalmente unidas no século XX, nasceu a Síntese Evolutiva Moderna.


Hoje, a biologia contemporânea alcançou a biologia dos sistemas e a biologia molecular. Não vemos mais os organismos apenas como os relógios de Descartes ou as essências de Aristóteles, mas como vastas redes interativas de informações genéticas e proteômicas, fluindo através do ambiente interno, o "milieu intérieur", num incrível equilíbrio fisiológico e ecológico. 




Quais serão as próximas grandes surpresas que nos aguardam, na medida em que a nossa compreensão sobre a vida avança?



Referências Bibliográficas



Alberts, B. et al. Molecular Biology of the Cell. 7th ed. 2022.

Cohen, C. The Story of Science. 2016.

Futuyma, DJ. & Kirkpatrick, M. Evolution. 4th ed. 2017.

Godfrey-Smith, P. Theory and Reality: an introduction to the philosophy of science. 2nd ed. 2021.

Hall, JE. Guyton and Hall Textbook of Medical Physiology. 14th ed. 2020.

Urry, LA. et al. Campbell Biology. 12th ed. 2021.


Várias entradas sobre o tema na Wikipedia.org.





segunda-feira, fevereiro 16, 2026

SISTEMA DIGESTÓRIO

SISTEMA DIGESTÓRIO

 

É o conjunto de órgãos e estruturas responsável por captar o alimento, digerir as substâncias, gerar a partir dessa digestão as substâncias absorvíveis, que são os nutrientes e eliminar o material que não foi absorvido na forma de fezes.

 



 

Vejamos o básico sobre o que ocorre em cada porção do aparelho digestório:

 

1. Boca à Faringe à Esôfago:



Local onde a digestão mecânica, o ato de triturar e misturar o alimento, prevalece sobre a digestão química. A digestão mecânica é realizada principalmente pelos dentes e pela língua durante a mastigação. Além de auxiliar a mastigação, a língua também atua no sentido do paladar, por conter as papilas gustativas, que percebem os sabores, e na deglutição, o ato de engolir o alimento.



Há também a digestão química, pois as glândulas salivares secretam a enzima amilase salivar (ou ptialina), capaz de quebrar/digerir o amido e o glicogênio em unidades de maltose. Normalmente para o ensino médio só se destaca a amilase salivar na boca, porém, há outras enzimas na saliva, citando dois exemplos:

 

  • Lisozima: quebra as paredes celulares de bactérias, dificultando a proliferação de micro-organismos que podem ser indesejáveis.
  • Lipase lingual: mais importante para os lactentes. Ajuda os bebês a digerirem os triglicerídeos componentes do leite materno. É secretada pela própria língua.

 

A digestão química na boca ocorre em pH próximo ao neutro ~6,2-7,6.

 

O alimento engolido passa da boca à faringe, porção compartilhada com o sistema respiratório, e de lá segue para o esôfago. É bom lembrar que, normalmente o bolo alimentar não adentra a laringe, pois a abertura da laringe, chamada glote, tem uma tampa cartilaginosa, a epiglote, que a fecha quando o alimento é engolido. Às vezes o mecanismo falha e nós engasgamos.


 



Do esôfago, um tubo de aproximadamente 25 cm em humanos adultos, o bolo alimentar será transportado para o estômago por ondas de contrações rítmicas na musculatura lisa que envolve o tubo digestório, o chamado peristaltismo. Além de impulsionar o alimento adiante no tubo digestório o peristaltismo também promove a digestão mecânica. Consideramos que a faringe e o esôfago não produzam enzimas digestórias.

 

2. Estômago:

 

O estômago é um órgão em forma de saco localizado na cavidade abdominal. A partir dele predomina a digestão química, apesar de que, por conta dos movimentos da musculatura do aparelho digestório, também há digestão mecânica.

O tecido epitelial que reveste o interior do estômago têm glândulas, nesse caso as glândulas fúndicas, que secretam a maior parte do suco gástrico. Esse suco gástrico contém ácido clorídrico (HCl) e o precursor da principal enzima estomacal, o pepsinogênio.




 

As funções do ácido clorídrico são as de tornar o meio bastante ácido, com o pH ~1,8-2,0. Esse meio ácido, além de eliminar vários micro-organismos potencialmente patogênicos, também permite a conversão do pepsinogênio na sua forma enzimaticamente ativa, a pepsina, que é uma enzima que digere proteínas e gera como produtos principais uma série de peptídeos. O meio ácido também favorece a digestão química ao desnaturar as proteínas e facilitar a ação da pepsina.




 

As glândulas estomacais também produzem um muco, constituído, dentre outras coisas, por glicoproteínas (mucinas) e íons bicarbonato (HCO3-). Esse muco atua protegendo o epitélio de revestimento do estômago contra a ação da própria pepsina e da acidez do suco gástrico.

 

HCO3- + HCl à H2CO3 + Cl-

H2CO3 à H2O + CO2.

 

Além da digestão de proteínas, no estômago também ocorre a absorção de água, sais e de alguns medicamentos, como a aspirina (ácido acetilsalicílico).

 

Exemplos de hormônios produzidos pelo estômago:

 

  • Gastrina: estimula a secreção de HCl e a renovação da mucosa gástrica, liberada em resposta à presença de proteínas no estômago, à distensão estomacal e à estimulação via nervo vagal (por exemplo, só de ver e sentir o cheiro da comida quando se está com fome).
  • Grelina: gera a sensação de fome quando o estômago está vazio.
  • Somatostatina: inibe a secreção de suco gástrico e gastrina quando o pH da solução estomacal está abaixo de 3,0, a fim de prevenir um excesso de acidez e possíveis danos.



O bolo alimentar permanece de 2-4h no estômago e então constituirá uma massa chamada quimo ácido.

 

3. Intestino Delgado: é onde ocorre a maior parte da digestão e também da absorção dos nutrientes.

 

No intestino delgado ocorre a digestão química em meio alcalino de vários tipos de substâncias e também é o local onde a digestão termina e os nutrientes são gerados e absorvidos. Ele é dividido em três porções: o duodeno, o jejuno e o íleo.



Há três secreções que atuam no intestino delgado: o suco pancreático, a bile e o suco entérico.

 


A bile é uma secreção produzida pelo fígado e armazenada na vesícula biliar. Essa secreção atua como um detergente, fragmentando gotas de lipídeos a fim de auxiliar a digestão dessas substâncias, que são hidrofóbicas. Essa fragmentação aumenta a área de superfície para a ação das lipases, as enzimas que os digerem. É importante destacar que a bile não contém enzimas nem ação enzimática.

 

O suco pancreático é uma secreção produzida pelas glândulas exócrinas do pâncreas. Contém várias enzimas digestórias para atuar, basicamente sobre todos os tipos de substâncias orgânicas a serem digeridas. Dentre as enzimas constituintes, podemos destacar: 

 

  • Amilase pancreática: digere amido.
  • Tripsina e quimotripsina: digerem proteínas. Essas duas enzimas são proteinases que, assim como a pepsina, também são liberadas na forma de precursores inativos, o tripsinogênio e o quimotripsinogênio. O tripsinogênio é convertido em tripsina graças a ação da enzima enteropeptidase, produzida pelo intestino delgado. A tripsina converte mais tripsinogênio em tripsina e a tripsina converte o quimotripsinogênio em quimotripsina. Há também outras proteinases, como as carboxipeptidases A e B e a elastase.
  • Lipases: lipase pancreática, colipase, fosfolipase A2 e esterase de colesterol. São enzimas que digerem os lipídeos.
  • Nucleases: digerem ácidos nucleicos.

 

Essas enzimas do suco pancreático atuam em meio alcalino: a faixa de pH ótima para elas é alcalino. Por conta disso, o suco pancreático contém íons bicarbonato (HCO3-), para neutralizar a acidez do quimo ácido proveniente do estômago.

 

Além da bile e do suco pancreático o intestino delgado apresenta outra secreção, o suco entérico, produzido pelo próprio intestino delgado. Essa secreção contém as enzimas que finalizam o processo digestório e geram os nutrientes, as substâncias absorvíveis. O detalhe importante e interessante é que essas enzimas normalmente não estão em solução, elas se localizam nas membranas das células do epitélio intestinal. Como exemplos, há peptidases e dissacaridases.

 


As peptidases digerem os peptídeos gerados pela ação de proteinases como a pepsina, tripsina e a quimotripsina. A digestão dos peptídeos pelas peptidases gera os aminoácidos.

 

Uma dissacaridase importante é a lactase, que digere a lactose em glicose e galactose. A incapacidade de manter a produção dessa enzima na idade adulta torna a pessoa intolerante à lactose, pois não a digere.

 


Também é necessário destacar que tanto a bile, quanto os sucos pancreático e entérico possuem íons bicarbonato, cuja função é neutralizar a acidez do quimo ácido proveniente do estômago e tornar a porção inicial do intestino delgado alcalina (pH ~7,5 – 8,8). As porções mais distais do intestino delgado têm pH que tende ao levemente ácido por conta da atividade de lactobacilos, que geram energia via fermentação lática e liberam ácido lático nesse meio.

 

Após sofrer a ação das secreções que agem no intestino o bolo alimentar, antes chamado quimo, passa a ser chamado quilo (“quimuitoácido e quilalcalino”).

 

A parede interna do intestino delgado apresenta “rugas e ruguinhas”, são as vilosidades e as microvilosidades, prolongamentos que aumentam bastante a área da superfície de absorção de nutrientes (200-250 m2!), para aumentar a eficiência do processo.

 


No tocante à regulação hormonal, destacaremos dois hormônios produzidos pelo intestino delgado:

 

A secretina é liberada em resposta à presença do quimo ácido no intestino delgado e à sua acidez. Ela age no pâncreas e nos dutos biliares, promovendo a liberação do suco pancreático e da bile (secreções contendo íons bicarbonato) e também age no estômago inibindo a secreção de suco gástrico. Foi o primeiro hormônio a ser descoberto.

 

A colecistocinina é liberada em resposta à presença de lipídeos. Age promovendo a liberação de bile, de suco pancreático (que contém lipases), inibe o esvaziamento gástrico, a fim de conseguir digerir os lipídeos que já se encontram no intestino e induz o hipotálamo a gerar a sensação de saciedade.

 




4. Intestino grosso ou cólon à Reto à Ânus.

 

A porção inicial do intestino grosso tem um apêndice, chamado ceco. Ele abriga populações de micro-organismos beneficiais, que podem repopular o intestino caso necessário e, também possui tecido linfoide em sua parede. Nesse local há a maturação de linfócitos B e a produção de anticorpos que controlarão a microbiota intestinal.

 

O intestino grosso propriamente dito é dividido em quatro porções: os cólons ascendente, transverso, descendente e sigmoide.

 




As funções do intestino groso são basicamente absorver a água e sais do bolo alimentar. Também há a absorção de algumas vitaminas. Assim, formam-se as fezes. As fezes são constituídas de 75 % de água e 25 % de sólidos diversos (bactérias, fibras vegetais, pigmentos e etc.).

 

Outro detalhe importante sobre o intestino grosso é que ele abriga a maior parte da microbiota intestinal, um conjunto diverso de micro-organismos, principalmente bactérias, que habita o órgão, se beneficia dos restos que não aproveitamos e nos pagam uma espécie de aluguel. O intestino delgado também possui uma microbiota, mas mais concentrada na porção final, o íleo.

 

Essas bactérias do cólon se aproveitam das fibras vegetais que ingerimos. Nós não conseguimos digerir essas fibras, mas as bactérias conseguem e os usam em processos fermentativos para gerarem energia. Esses processos geram subprodutos de interesse para nós, como exemplos temos o butirato, um ácido graxo de cadeia curta usado como fonte de energia pelas próprias células do intestino grosso. As bactérias da microbiota também produzem algumas vitaminas, como a K e a B12.

 


Por fim, as fezes atingem o reto, que possui esfíncteres (musculatura circular em volta do órgão tubular) que junto a dois esfíncteres anais, controlam a saída das fezes. O reto possui esfíncteres de Houston, que ao serem distendidos pela chegada das fezes enviam o sinal ao encéfalo de que “Houston, we have a problem!” é a vontade de defecar que chegou. Após passar por esses esfíncteres, as fezes também distendem o esfíncter anal interno, de contração involuntária e que fica o tempo todo contraído até essas benditas fezes chegarem até ele. É o momento em que você entende que tem de resolver esse problema... Então as fezes chegam finalmente ao esfíncter anal externo, de contração voluntária. Aqui é que surgem os heróis. Ou não, o ideal mesmo é buscar resolver o problema quando a vontade surge, ficar segurando pode ter consequências bem desagradáveis, por exemplo, pode haver um peristaltismo no sentido contrário e as fezes serem devolvidas para o cólon, onde haverá mais absorção de água, transformando aquele cilindro macio e escorregadio em um fecaloma, uma pedra de fezes que quando sai, sai de forma rude, pra dizer o mínimo. Sugiro sempre andar com papel higiênico e lenços umedecidos por aí.


Referências:


Livros de biologia do ensino médio: Amabis & Martho; Lopes & Rosso; Linhares, Gewandsznajder & Pacca. Além desses, o do Campbell de Biologia.

Várias entradas na Wikipedia (em inglês).

Livros de fisiologia do Guyton & Hall; e Silverthorn.

Pesquisas no chatbot com IA (Gemini). 

As imagens foram feitas com o uso do Canva, MindtheGraph e do Gemini.




 

 

 

 

 

sábado, junho 10, 2023

HISTOLOGIA VEGETAL

 O CORPO DAS PLANTAS (ANATOMIA VEGETAL)

 

Mais especificamente das angiospermas dicotiledôneas, representadas pelas árvores que vemos comumente por aí, como as mangueiras, abacateiros, ipê e etc.




 

HISTOLOGIA VEGETAL

 

De forma geral, temos de estudar este assunto tendo em mente que as plantas apresentam dois tipos básicos de tecido, os meristemáticos e os adultos/permanentes, e dois tipos de crescimento, baseados no tipo de tecido responsável pela multiplicação celular, os crescimentos primário e secundário. Ainda, na mesma planta há partes jovens e velhas, por exemplo, as extremidades do caule e da raiz são jovens, ao passo que as partes mais próximas da linha do solo são mais antigas.

 

Os tecidos meristemáticos são constituídos de células indiferenciadas, capazes de originar os outros tipos de células e de tecidos. São células que têm, em geral, parede celular mais fina e vacúolos centrais menores. Já os tecidos adultos têm vários tipos de células que persistem no corpo da planta.



 


Sobre as formas de crescimento, o primário é basicamente o crescimento em comprimento, resultante da multiplicação dos meristemas localizados na ponta do caule e na ponta da raiz (os meristemas apicais). Já o crescimento secundário é o crescimento em espessura, típico das plantas com porte arbóreo, como as angiospermas dicotiledôneas, sobre as quais daremos ênfase aqui. É um crescimento que resulta da multiplicação das células localizadas nos meristemas secundários: o câmbio vascular e o felogênio. Não se preocupe, já veremos todos esses tecidos (ou seja, preocupe-se, justamente por termos de ver tudo isso ).




 

Vejamos então a seguir, os tipos básicos de tecidos vegetais:

 

1. Tecidos de revestimento: cobrem o corpo da planta.

 

1.1. Epiderme: tecido constituído de uma camada de células que reveste as folhas e as partes jovens da planta, que são, ou a planta jovem ou então as extremidades do caule e da raiz. A epiderme é revestida por uma cutícula constituída de ceras (lipídeos), com a função de prevenir a perda excessiva de água. Na face de baixo das folhas, chamada de face abaxial, há estruturas chamadas estômatos, com uma abertura que pode ser fechada ou aberta, para controlar a entrada de O2 e CO2 e a saída de H2O(g) por transpiração. Os estômatos são estudados nos conteúdos de fisiologia vegetal.




 

1.2. Periderme: a casca das raízes e dos caules adultos é constituída pela periderme e pelo floema. A periderme é uma camada que possui três tecidos, o súber, o felogênio e a feloderme. Na medida em que a planta se desenvolve a periderme substitui a epiderme. Em algumas plantas, a periderme morre e é substituída por outra. A periderme morta, que se desprende, é chamada ritidoma (comum em goiabeiras, por exemplo).

 

1.2.1. Súber: tecido mais externo, também conhecido como cortiça. É constituído de células mortas e cujas paredes celulares são impregnadas de suberina, uma substância impermeabilizante. No súber é possível observar pequenas aberturas chamadas lenticelas, que permitem as trocas gasosas.

1.2.2. Felogênio: meristema secundário que origina a periderme (o súber e a feloderme).

1.2.3. Feloderme: tecido parenquimático.

 




2. Tecidos de preenchimento: são os parênquimas, um grupo de tecidos bastante diverso. Preenchem os espaços das plantas, mas podem realizar outras funções. Exemplos:

 

2.1. Clorofiliano: preenche o interior das folhas e é constituído de células fotossintetizantes.

2.2. Amilífero: armazena amido (as batatas e as mandiocas têm bastante).

2.3. Aquífero: armazena água. Pode ser encontrado em plantas típicas de ambientes áridos.

2.4. Aerífero: funciona como boia e permite a flutuação da planta na água.




 

3. Tecidos de sustentação: sustentam o corpo do vegetal.

 

3.1. Colênquima: formado por células vivas, encontrado principalmente no córtex dos caules e nas folhas.

3.2. Esclerênquima: formado por células mortas, com paredes secundárias espessas e impregnadas da substância lignina. Esse tecido é mais comumente encontrado em regiões que não crescem mais, como os caules maduros e as cascas, porém também está presente nas folhas e nas cascas duras de frutos e de sementes. Algumas das células do esclerênquima têm formato de fibras e são utilizadas na fabricação de fibras têxteis e outros produtos similares.



OBS: as paredes celulares primárias são, justamente, as primeiras que se formam. São encontradas em todas as células da planta, compostas primordialmente de celulose, hemicelulose e pectinas, esse tipo de parede é flexível, contém ~70 % de água em sua composição e permite o crescimento da célula. Quando a célula para de crescer, deposita-se mais constituintes no interior da parede primária, inclusive a lignina, de maneira que essa parede se torna mais espessa, mais rígida e resistente e com menor teor de água, é a parede secundária.


 

3.3. Xilema: (veja abaixo).

 

4. Tecidos condutores de seiva: transportam as seivas bruta e elaborada.

 

4.1. Xilema (lenho): responsável pela condução da seiva bruta, das raízes até as folhas. A seiva bruta é uma solução constituída de água e sais minerais extraídos do solo pela raiz. As células do xilema são mortas e têm as paredes celulares espessas e reforçadas por lignina, que auxilia na sustentação da planta. Nas eudicotiledôneas essas são as traqueídes e os elementos de vaso.

 

4.2. Floema (líber): conduz a seiva elaborada, das folhas para as outras regiões da planta. A seiva elaborada é uma solução contendo várias substâncias orgânicas produzidas nas folhas, graças ao processo de fotossíntese. As células do floema são vivas, são os elementos de tubo crivado e as células companheiras.




Estrutura simplificada do xilema e do floema, mostrando os tipos celulares principais. Imagem modificada de: Adobe Stock.

 

5. Tecidos meristemáticos: possui células indiferenciadas, cujas paredes celulares são menos espessas e os vacúolos centrais são menores. Esses tecidos originam os tecidos acima.

 

5.1. Meristemas primários: são os que descendem diretamente dos meristemas embrionários, localizados nos ápices do caule e da raiz (veja de novo a figura lá no começo do texto). Responsáveis pelo crescimento primário, ou seja, longitudinal/vertical.

 

5.2. Meristemas secundários: são o felogênio da periderme, o câmbio vascular (gera os vasos condutores de seiva no caule) e o periciclo (gera os vasos condutores de seiva na raiz). Esses meristemas são originados a partir da desdiferenciação de tecidos adultos. Promove o crescimento secundário, ou seja, em espessura.

 

A tabela a seguir mostra a origem e desenvolvimento dos principais tecidos vegetais:



Na imagem abaixo estão mostrados os principais tecidos vegetais e as disposições deles. Imagem modificada de: Adobe Stock.