OS PROTISTAS PARTE 02 - OS PROTOZOÁRIOS
Protozoário é um
termo que significa “animal primordial”. Não são animais, pois não são
multicelulares. São seres (comparar com as algas):
Eucariontes;
Unicelulares;
Heterótrofos.
A imagem abaixo mostra um pouco da diversidade dos protozoários. No ensino médio usamos uma classificação artificial, que mostra representantes dos táxons de protozoários de acordo com o tipo de estrutura locomotora que possuem.
Diversidade dos protozoários.
Podem ser de vida
livre, geralmente aquáticos, ou então parasitas. Uma característica marcante
deste grupo é o fato de que alguns destes organismos, utilizaremos os ciliados
como exemplo, possuírem células bastante complexas, com um micronúcleo e um
macronúcleo, e com regiões especializadas, análogas aos órgãos dos seres
pluricelulares com tecidos verdadeiros.
Paramecium sp. um protozoário ciliado aquático comum, que se locomove por meio de vários cílios localizados em sua superfície. A célula apresenta grande diversidade de organelas.
Cílios: diversos
prolongamentos citoplasmáticos que permitem a locomoção da célula.
Vacúolo contrátil:
É uma estrutura responsável pela osmorregulação e pela excreção. Elimina o
excesso de água absorvida pelo protozoário e também pode eliminar excretas.
Citóstoma: “boca” celular. Abertura por onde entram as partículas alimentares, inclusive bactérias. Os paramécios são filtradores e atraem alimento para o citóstoma utilizando o batimento dos cílios.
Citoprócto: “ânus”
celular. Elimina os restos não aproveitados dos alimentos.
Tricocistos –
Bolsas com fios enovelados que podem ser disparados em resposta a certos estímulos.
Não se sabe as funções exatas dessas estruturas, mas elas podem variar entre os
protozoários, sendo usadas para capturar partículas de alimento, defesa e, no
caso dos paramécios, talvez tenha a função de ancorar a célula.
Micronúcleo e
macronúcleo: aparentemente, o macronúcleo participa das atividades metabólicas em
geral e também da reprodução assexuada das células, já o micronúcleo parece
participar apenas dos processos reprodutivos, sexuados ou não. É como se fosse um backup do macronúcleo. Veremos mais
adiante.
No que diz
respeito à reprodução dos protozoários, esta pode ser:
Assexuada, como exemplos:
Divisão binária.
Divisão múltipla,
em que ocorre a multiplicação do núcleo antes da divisão propriamente dita.
Sexuada, como exemplo:
Fusão de
organismos adultos e formação de um zigoto, que por sua vez origina outros
indivíduos.
Os ciliados, que
possuem um macronúcleo e um micronúcleo, podem efetuar o processo de conjugação. O
processo é mediado pelos micronúcleos, que se multiplicam e são transferidos
para a célula parceira. Ocorre a degeneração do macronúcleo das células, porém,
ao término do processo os micronúcleos originam novos macronúcleos. O processo
termina por gerar quatro indivíduos diferentes dos dois originais.
Classificação dos
protozoários:
Como mencionado, classificação
utilizada para o ensino médio é baseada em características das células, como a flexibilidade
da membrana plasmática e as estruturas locomotoras que possuem (as
estruturas locomotoras, nas espécies sésseis, são utilizadas para a captura de
alimento).
Estruturas locomotoras dos protozoários. Imagem: https://biologywise.com/protozoa-classification-characteristics
Vejamos alguns
grupos importantes:
Grupo |
Características |
Amebozoários (Amebas) |
Célula flexível.
Locomovem-se e capturam alimento com o uso dos pseudópodes. As amebas dulcícolas
são hipertônicas em relação ao meio e possuem vacúolos contráteis para
expulsar o excesso de água. Podem apresentar mitossomos, organelas derivadas
das mitocôndrias, mas que não executam a respiração celular. Algumas formam
carapaças chamadas testas. Entamoeba histolytica causa
a amebíase. |
Actinopoda (radiolários e
heliozoários) |
Também apresentam
pseudópodes. Os heliozoários são comuns em
águas doces. Alguns apresentam exoesqueleto. Os radiolários têm um
endoesqueleto interno de sílica. Podem se associar de forma simbiótica com
algas (zooxantelas – dinoflageladas). |
Foraminifera (foraminíferos) |
Também apresentam
pseudópodes. Possuem um esqueleto de carbonato de cálcio perfurado que pode
formar depósitos calcários chamados vasas, as rochas usadas na construção das
pirâmides do Egito são provenientes desses depósitos. São indicadores da presença
de petróleo. |
Apicomplexa (esporozoários) |
Não possuem estruturas
locomotoras*. Apresentam um conjunto de
estruturas que constituem um complexo apical, responsável pela penetração do
protozoário na célula hospedeira. Têm também um apicoplasto, um plastídeo
que perdeu a capacidade fotossintética. Plasmodium sp. causam a
malária e Toxoplasma gondii causa a toxoplasmose. *Você pode considerar assim para o ensino médio, mas, na verdade, os apicomplexos possuem uma estrutura chamada glideossomo (de glide, deslizar) que permite que eles se locomovam. |
Flagelados/Cinetoplastídeos | Locomovem-se com o uso de
flagelos (nas espécies sésseis, os flagelos servem para a captura de
alimentos). Têm uma mitocôndria grande, próxima ao flagelo, com uma dilatação onde se concentra o
DNA, chamada cinetoplasto. Há espécies parasitas, como o Trypanosoma
cruzi, causador da doença de chagas, Leishmania chagasi, causador
da leishmaniose visceral e Leishmania brasiliensis, causador da
leishmaniose de pele. |
Diplomonadidos e
Parabasálios
|
Derivam da linhagem que
adquiriu apenas as mitocôndrias a partir de endossimbiose primária. Vivem em
condições anaeróbicas ou microaerofílicas. Também possuem flagelos. Os diplomonadidos Têm mitossomos,
derivados das mitocôndrias, que agem na maturação de proteínas contendo centros
de ferro e enxofre. Há representantes parasitas, como Giardia intestinales,
causador da giardíase. Ao invés dos mitossomos os
parabasálios tem outro tipo de organela derivada das mitocôndrias, os
hidrogenossomos, capazes de gerar ATP em condições anaeróbias a partir dos
piruvatos gerados na glicólise. O processo gera H2. O Trichomonas
vaginalis causa a IST chamada tricomoníase. Os Trichonympha sp.
vivem como simbiontes nos aparelhos digestórios dos cupins e os auxiliam a
digerir a celulose. |
Ciliados (ciliados, como
os paramécios) |
Locomovem-se com o uso de
cílios e nas espécies sésseis, os cílios servem para a captura de alimentos.
É o grupo de protozoários com a maior diversidade de espécies. Têm dois
núcleos, um macronúcleo e um micronúcleo (este, envolvido no processo de
conjugação). Balantidium coli causa a balantidiose. |
Algumas doenças causadas pelos protozoários:
Antes de vermos as
doenças:
Parasita heteroxeno: necessita de mais de um hospedeiro para completar seu ciclo de vida.
Hospedeiro
definitivo: é aquele onde ocorre a reprodução sexuada (pode haver também
reprodução assexuada!).
Hospedeiro intermediário:
é aquele onde só ocorre reprodução assexuada.
Parasita monoxeno:
o parasita necessita de apenas um hospedeiro para completar seu ciclo de vida.
Amebíase: Também chamada disenteria amebiana, é causada pelo protozoário Entamoeba histolytica (ameboide). Adquire-se o protozoário via ingestão de água e alimentos contaminados com cistos (bolsas contendo amebas). As amebas invadem células da parede intestinal, causando diarreias sanguinolentas. Previne-se com medidas de saneamento básico. O tratamento é feito com medicamentos específicos.
Esses medicamentos específicos usados para tratar as doenças causadas por protozoários é como se fossem o equivalente deles em relação aos antibióticos, que são substâncias que agem nas células dos parasitas e perturbam algum processo. Mas no caso dos protozoários, não usamos o termo antibiótico para esses medicamentos pois, tradicionalmente, os antibióticos são substâncias produzidas por fungos e que agem contra as bactérias, enquanto essas contra os protozoários têm fontes diversas, tanto puramente sintéticas como de outros organismos. Por exemplo, um medicamento utilizado no tratamento da amebíase é a paromomicina, originada a partir da fermentação realizada por bactérias do gênero Streptomyces.
Esquema mostrando o ciclo de vida de Entamoeba histolytica. Imagem: Wikipedia.
Leishmanioses: causadas
por protozoários do gênero Leishmania. Podem ser:
Visceral, quando o
baço e o fígado são atacados. Os sintomas são febres e a perda do apetite.
Causada pelo Leishmania chagasi.
Tegumentar, também
chamada úlcera de Bauru, quando o protozoário ataca a pele. O sintoma
principal é o aparecimento de feridas ulcerosas. Causada pelo Leishmania
brasiliensis.
O protozoário é
transmitido pela picada do mosquito palha (gênero Lutzomya).
Previne-se combatendo o mosquito (inseticidas, uso de filós, eliminar
criadouros...). O tratamento é feito com medicamentos contendo o
elemento químico Antimônio (Sb).
Ciclo de vida de Leishmania sp. Nesse ciclo, considera-se que os mosquitos sejam os hospedeiros intermediários e os mamíferos os hospedeiros definitivos, pois os protozoários na forma de amastigotas podem realizar reprodução sexuada.
Doença de Chagas: causada pelo protozoário Trypanossoma cruzi, cujo vetor são insetos hematófagos de hábitos noturnos chamados barbeiros, como o Triatoma infestans. Eles têm esse nome pois picam geralmente no rosto, a parte que fica descoberta quando dormimos. Ao picar a pessoa, o barbeiro elimina fezes contaminadas com o protozoário, pois suga uma quantidade muito grande de sangue. Ao se coçar, devido à reação inflamatória no local da picada, a pessoa acaba por provocar pequenas lesões na pele e é por aí que os protozoários penetram no organismo. Eles se instalam preferencialmente nas células cardíacas. Os sintomas iniciais são febres e cansaço. Previne-se combatendo o inseto vetor com o uso de filós e o vedamento de frestas onde o inseto se esconde, por exemplo. A doença pode ser tratada com medicamentos específicos ainda no início da infecção. Lembre-se: Não é a picada do barbeiro que transmite o protozoário, ele é adquirido a partir das fezes contaminadas, penetrando pelas lesões causadas no ato de coçar! Inclusive, é possível adquirir esses protozoários ingerindo caldo de cana ou açaí contendo fezes ou restos de barbeiros contaminados.
Ciclo de vida simplificado do T. cruzi. O homem é o hospedeiro definitivo. Imagem: chagasfound.org.
Malária: causada
por protozoários do gênero Plasmodium, transmitidos pela picada das
fêmeas dos mosquitos do gênero Anopheles também chamados mosquitos
prego (não confundir com o palha, da leishmaniose). Os protozoários
infectam inicialmente o fígado e depois infectam e lisam as hemácias em ciclos
regulares, de 48 h ou 72 h, dependendo do plasmódio. Os sintomas principais são
febres em intervalos regulares de tempo, coincidentes com os eventos de lise
das hemácias. O tratamento é feito com o uso de medicamentos capazes de
eliminar o protozoário do sangue como o quinino e a artemisina (que
infelizmente acabam por selecionar formas resistentes), e a prevenção é feita
combatendo-se os mosquitos. É curioso notar que a
expiração de indivíduos infectados com os plasmódios atraem fêmeas não
infectadas dos mosquitos.
Ciclo de vida dos plasmódios. Nesse ciclo o hospedeiro definitivo é o mosquito.
Referências:
Livros de biologia do ensino médio da Sônia Lopes e Amabis, várias entradas sobre o assunto na Wikipedia e Britannica e nos links das imagens.